Estudo, oração e as Setenta Semanas de Daniel

Pr. Valmir Nascimento

Nesta seção, estudaremos o capítulo 9 do livro de Daniel, ocasião em que o profeta se acha profundamente preocupado com o destino de seu povo e de Jerusalém. Ele busca entender o plano de Deus para a restauração de Israel e o fim do exílio. Com fervor espiritual, orou a Deus buscando respostas, e sua oração sincera foi atendida por uma revelação profunda por meio do anjo Gabriel. Esta revelação divina contém a profecia das Setenta Semanas, por meio da qual Deus faz saber sobre um período de tempo decretado para o seu povo e sua cidade santa. Neste episódio, além de aprendermos mais uma vez com a postura piedosa de Daniel, veremos a história redentora que se desdobra na Bíblia, incluindo a vinda do Messias, sua morte e o subsequente destino de Jerusalém.

I – ESTUDO E INTERCESSÃO DE DANIEL

O reino dos caldeus havia chegado ao fim com a queda da Babilônia (Dn 5.30-31), e agora Israel encontrava-se sob o domínio do Império Medo-Persa. Dario é o governante, sob a autoridade do rei Ciro, como vimos no capítulo 9.

A postura do profeta de Daniel, em sua vida de devoção, mais uma vez tem muito a nos ensinar em nossos dias.

Consciente acerca das visões que Deus lhe havia dado, a mente de Daniel se volta para o seu povo, dedicando-se ao estudo das antigas profecias por meio das Escrituras (v.2). Ele se recordou da referência de Jeremias, profeta que vaticinou sobre o cativeiro babilônico. Seu interesse não era por mera curiosidade intelectual. Ele tinha convicção de que Deus havia falado com Jeremias e que podia falar com ele também.

Tendo estudado os livros, os pergaminhos trazidos de Jerusalém, Daniel teve entendimento acerca do cumprimento da desolação de Jerusalém no período de setenta anos. Esta profecia se encontra nos capítulos 25 e 29 de Jeremias, referindo-se ao período de provação dos israelitas sob domínio estrangeiro.

É interessante perceber o zelo de Daniel em ler e estudar o ensino ministrado por outros profetas. Ele cria que as Escrituras eram a Palavra de Deus. O verdadeiro profeta, afinal, jamais despreza o estudo sistematizado das Escrituras! Como escreveu o apóstolo Pedro, “nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação; porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2Pe 1.20,21).

Daniel tinha testemunhado que a Palavra do Senhor não cai por terra, vendo o seu cumprimento. Existiam, portanto, evidências suficientes para confiar na sua veracidade. De igual forma, como diz John Lennox, temos evidências comprobatórias externas provenientes da história, arqueologia e disciplina sobre a veracidade das Escrituras, mas no fim é a Palavra de Deus que autenticará a si mesma ao ser percebida pela Palavra de Deus por aquilo que diz[1].

Daniel era um homem de oração e também dos livros. Daniel tinha visões, mas nunca abandonou a Palavra escrita de Deus. Eis um dos segredos de como viver na Babilônia, sem que a "Babilônia" viva em você. Isso nos lembra que a leitura da Bíblia e de livros de bons autores é vital para o entendimento do cristão sobre as questões espirituais. Por isso, Paulo aconselha o jovem Timóteo a persistir na leitura (1Tm 4.12).

Oração e jejum

Nas palavras de David Helm, enquanto Daniel lia Jeremias, seu afeto por Deus sem dúvida teria aumentado (sobretudo se levarmos em conta que é provável que a passagem de 25.11,12 tenha estado entre as que foram lidas por Daniel)[2].

Esses versículos indicam a proximidade do fim do Exílio. Suas orações estavam cheias de uma expectativa confiante de que Deus estava prestes a agir; uma vez que Daniel cria que tudo aquilo que Deus havia prometido, Deus cumpriria. Em vista disso, a postura que Daniel adota em 9.3 para essa oração é intrigante e surpreendente: "Então voltei a face a o Senhor, buscando-o em oração e rogando por misericórdia com jejum e pano de sacos e cinzas"[3].

Ao compreender a mensagem, Daniel buscou o Senhor em oração e súplicas, com jejum (v.3). Ele estava empenhado em uma busca profunda e sincera pela ajuda divina. Daniel estava disposto a orar com as Escrituras.

Ao longo de sua jornada de fidelidade, Daniel sempre se mostrou um homem de oração. Ele orou por livramento; orou para agradecer, e agora orava para interceder. Daniel tinha convicção de que era preciso voltar-se ao Senhor com um coração contrito e arrependido por causa da sua nação. Por isso, ele põe-se a interceder pelo povo de Judá, de Jerusalém e de todo o Israel.

Mesmo sabendo que Deus havia falado por meio de outro profeta sobre o tempo estabelecido sobre Israel, Daniel não fez uma oração "reivindicando" de Deus o seu cumprimento. Também não entoou canções iguais às contemporâneas que exigem "de volta o que é meu". Ele também não usou a promessa divina como justificativa para ficar inerte, como escreveu Stuart Olyott:

No decorrer da História, as pessoas têm utilizado frequentemente as promessas de Deus como desculpa para não fazer nada. A atitude delas tem sido fatalista, levando-as à inatividade, enquanto aguardam o cumprimento das promessas. Daniel não conhecia esse tipo de atitude. Para ele, a promessa divina era uma razão para se engajar no trabalho árduo de oração, e não uma desculpa para a inatividade. Resolveu implorar que Deus manifestasse, mais uma vez, a sua benignidade para com Jerusalém[4].

Em vez disso, o profeta se dirige a Deus em humildade e reverência. Sua oração é intensa, de forma que quase podemos ver o servo de Deus prostrado, numa busca fervorosa pela face do Senhor. Até aqui, Daniel tem sido econômico ao registrar os acontecimentos da sua jornada, mas nesta oração ele faz questão de se alongar. Sua intercessão vai do verso 4 ao 19. É um modelo de oração para todo crente.

Em primeiro lugar, Daniel adora e reconhece a grandeza de Deus. Ele diz: "Ah! Senhor! Deus grande e tremendo, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos" (v.4).

Em segundo lugar, ele confessa o pecado do povo (vv. 5-15). Daniel expressa profundo pesar pelos pecados do povo de Israel, reconhecendo que a desobediência às leis divinas resultou no castigo do exílio. Daniel junta-se ao povo quando confessa o seu pecado e infidelidade. Embora íntegro, Daniel não se pôs acima do povo, mas na mesma condição. Por duas vezes ele usa a expressão confusão de rosto (vv.7,8), referindo-se a uma condição em que as pessoas estão desconcertadas; em um estado de confusão, incerteza ou desorientação.

Em terceiro lugar, ele busca misericórdia (v.16). Daniel pede misericórdia a Deus, apelando para sua grande bondade. Conforme Stuart Olyott, "parte da grandeza desta oração está no fato de que Daniel tinha consciência de não haver Deus esquecido de ser misericordioso. Alicerçado nisso, Daniel teve a coragem de aproximar-se do Senhor e deixar confiantemente, perante Ele, os seus pedidos"[5]. Ele pede para que o Senhor aparte a sua ira sobre Jerusalém e sobre o monte santo (v.16). Ele pede a Deus que ouça a oração e que a Sua face brilhe sobre o Seu santuário desolado (v.17). Clama novamente para que sua oração seja atendida, perdoe o seu povo, agindo sem tardar, por amor do seu próprio nome (v.18).

Com este exemplo bíblico, um verdadeiro modelo de influência que devemos seguir, somos inspirados em nossos dias a compreender o valor da oração intercessória e do jejum (Ef. 6.18; 1Ts 1.2; 1Tm 2.1,2; Mt 6.16-18) .

II – DEUS REVELA O FUTURO DO SEU POVO

Antes mesmo de terminar a sua intensa oração, o anjo Gabriel[6]aparece repentinamente diante dele (v.21). Este ser angelical, o mesmo registrado no capítulo 8, é mencionado na Bíblia como mensageiro de Deus (Lc 1.19,20; 26). Foi enviado nesta ocasião em resposta à súplica do profeta, para lhe dar entendimento sobre a visão (vv.22,23).

Apesar do espanto, Daniel deve ter experimentado um conforto indescritível ao ouvir a voz do anjo. Seu pedido moveu o céu. Muitas vezes, em nossas vidas, não recebemos uma resposta divina rápida, daí a necessidade da perseverança (Cl 4.2). No caso de Daniel, porém, o Senhor apressou-se em atender ao seu servo, porque era ele "mui amado" (v.23). A verdade maravilhosa é que Deus tem prazer em ouvir a oração dos seus filhos, sobretudo quando se concentram na glória do Seu nome!

Daniel era amado no céu. Esta é uma afirmação importante nesta passagem. Ele era amado no céu por causa da jornada de piedade e de integridade ao longo da sua vida. "Ele andou com Deus na juventude e na velhice, como jovem escravo e como primeiro ministro da Babilônia. Ele foi fiel a Deus na pobreza e na riqueza, na humilhação e na promoção"[7].

Oração aos anjos?

Você deve notar que Daniel dirigiu a sua oração a Deus, e não ao anjo Gabriel. Em lugar algum das Escrituras temos autorização orar aos seres angelicais. Esse tipo de prática é chamada de angelolatria, ou seja, idolatria aos anjos.

Embora eles sejam seres espirituais com poderes extraordinários superiores aos homens (Sl 8.4,5; 103.20; 2Pe 2.11), são criaturas limitadas. Não são oniscientes (1Pe 1.12) e recusam a adoração (Ap 22.8,9); antes, adoram a Deus e a Cristo (Ap 5.11,12). Eles são "espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação” (Hb 1.14).

Assim, supostas mensagens angelicais não podem perverter o evangelho revelado em sua Palavra (Gl 1.8). Por essas mesmas razões, conforme consta em nossa Declaração de Fé das Assembleias de Deus no Brasil, a ideia de que todas as pessoas possuem um anjo da guarda designado para acompanhá-las durante toda a sua vida não tem sustentação bíblica.

A revelação das setenta semanas e o Messias

A mensagem de explicação do anjo celeste revela um tempo determinado de setenta semanas decretadas por Deus para o seu povo e sua cidade santa (v.24). Ela vai além do pedido do profeta.

Fazendo uma contagem histórica da profecia de Jeremias, Daniel compreendia que o cativeiro estava chegando ao fim. Isso viria a se cumprir por intermédio do Decreto de Ciro, não muito tempo depois.

Contudo, o anjo dá um entendimento mais profundo[8] e apocalíptico das setenta semanas, que se aplica não somente a Israel, mas a todo o mundo. Roy Swin explica:

(…) na mensagem que Gabriel trouxe, mais uma porta de percepção profética se abre em uma dimensão mais ampla em torno do propósito de Deus não somente para Israel, mas para o mundo. Essa dimensão mais ampla de revelação diz respeito à obra e ao reino do Messias. Esse assunto tinha sido introduzido em visões e sonhos anteriores, como na grande imagem de Nabucodonosor (2.44-45) e na visão dos quatro animais por Daniel (7.13-14). Mas aqui a mensagem vem de outro anjo e em maiores detalhes.

Semelhantemente a Daniel, Deus quer que você amplie o seu entendimento e tenha uma dimensão mais profunda da sua Palavra e da vida espiritual.

As setenta semanas simbólicas destacam sobretudo o tempo e a obra do Messias. Ele é descrito como o Ungido e o Príncipe (vv.25,26). O verso 24 apresenta seis aspectos da sua obra redentora: acabar com a transgressão, dar fim ao pecado, expiar a iniquidade, trazer a justiça eterna, selar a visão e a profecia, e ungir o lugar santíssimo.

III – ENTENDENDO AS SETENTA SEMANAS

John Walvoord afirma que os quatro versículos finais do capítulo 9 de Daniel contém uma das mais importantes profecias do Antigo Testamento. Por esse motivo, Antonio Gilberto declarou que se não entendermos bem a profecia das Setenta Semanas, tampouco entenderemos o Sermão Profético de Mateus 24, e nem o livro de Apocalipse, uma vez que ela abrange esses dois. Deus deu a Daniel um quadro geral dos eventos futuros relacionados com Israel; e a João, no Apocalipse, deu os detalhes desses eventos[9].

Vejamos, por isso, o seu conteúdo, segundo declarado por Gabriel:

Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade, para cessar a transgressão, e para dar fim aos pecados, e para expiar a iniqüidade, e trazer a justiça eterna, e selar a visão e a profecia, e para ungir o Santíssimo.

Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos.

E depois das sessenta e duas semanas será cortado o Messias, mas não para si mesmo; e o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será com uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão determinadas as assolações.

E ele firmará aliança com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador. Daniel 9.24-27

Semanas de anos

A primeira questão nesta profecia é saber se as semanas em referência são semanas de dias ou de anos, visto existirem essas duas interpretações. Seguindo uma linha teológica conservadora, pré-milenista e dispensacionalista entende-se que nesta profecia são semanas de anos, não de dias.

Antonio Gilberto[10] elenca as seguinte razões para tal entendimento:

1) O original não diz "semana", e sim "setes" ("setenta setes"). Quando se trata de semana de dias, como em Daniel 10.2,3, é acrescentado, em hebraico, a palavra para dias: "yamin".

2) É bíblica a expressão "semana de anos". (Ler Levítico 25.8; Números 14.34; Ezequiel 4.7.) Aplicação prática de uma "semana de anos" (Gn 29.20,27).

3) Os seis ditosos eventos preditos, a respeito de Israel, em 9.24, ainda não se cumpriram.

4) Em 9.27, por ocasião da última das setenta semanas, a Bíblia diz: "E ele fará firme aliança com muitos por uma semana". É algo ridículo um pacto entre nações por uma semana de dias, quando somente o protocolo e as celebrações muitas vezes tomam mais de uma semana...

Nessa mesma linha, Walvoord comenta que o esmagador consenso da erudição concorda que a unidade de tempo deve ser considerada como anos[11]. Além disso, se interpretarmos como semanas de dias, o período seria de apenas 490 dias. Esse entendimento é improvável, visto que dentro desse espaço de tempo a cidade será reconstruída e destruída[12].

A leitura da passagem (vv.24-27) mostra que as semanas estão divididas em três grupos. Sendo semanas de anos, totalizam 490 anos. Os três grupos são: a) 7 semanas (49 anos); b) 62 semanas (434 anos); c) uma semana (sete anos).

Os dois primeiros grupos temporais (a + b), que totalizam 483 anos, estão no mesmo fluxo histórico, e devem ser contados na mesma ordem. Para o seu cálculo, considera-se o calendário lunar judeu com o ano de 360 dias, conforme interpretação advinda das próprias Escrituras. Isso porque, a referência bíblica mais antiga a um mês da história aponta para um mês de 30 dias de extensão[13] (Gn 7.11; 8.4). Este entendimento é confirmado[14] pelos 42 meses da grande tribulação (Ap 11.2; 13.5), período equiparado a 1260 dias (Ap 11.3; 12.6).

Desse modo, seguindo a nossa linha escatológica, as 69 semanas iniciais correspondem a 173.880 dias.

a) Sete semanas (49 anos): O início deu-se com o decreto da reconstrução de Jerusalém (v.25). Os principais estudiosos concordam que se trata do decreto de Artaxerxes Longímano, baixado em 445 a.C. (cf. Ne 2). Conforme Dwight Pentecost, "quando examinamos o Decreto de Artaxerxes, estabelecido no seu vigésimo ano e registrado em Neemias 2.1-8, vemos que é a data permissão para a reconstrução de Jerusalém. Esse constitui o início do período profético indicado por Deus nessa profecia"[16]. Ele termina em 396 a.C[17].

b) Sessenta e duas semanas (434 anos): Este período vai de 397 a.C. até os dias da morte de Cristo (vv.25,26). Esse ínterim marca as atrocidades sofridas por Israel debaixo do poder dos monarcas selêucidas, e do domínio romano. Neste tempo o Senhor foi morto e mais tarde Jerusalém foi novamente destruída através da liderança do general do exército romano, Tito, em 70 d.C.

c) Uma semana (7 anos): Esta etapa final da profecia de Daniel é um dos pontos mais debatidos[18] no estudo escatológico. Duas correntes sobressaem. A primeira linha interpretativa sustenta que a septuagésima semana foi cumprida nos anos imediatamente seguintes à morte de Cristo[19]. A segunda linha teológica, a qual seguimos, compreende que entre a sexagésima nova e a septuagésima semana existe uma lacuna, um lapso temporal, de sorte que a última semana da profecia ainda está no futuro.

Estudiosos como John Lennox, John Walvoord, Dwight Pentecost e outros observam que as dificuldades bíblicas e históricas em torno da primeira corrente são insuperáveis. Lendo Daniel 9.24, é difícil ver como as outras coisas, além da expiação de Cristo, se cumpriram no período de sete anos após a sua morte. Se isso ocorreu, é preciso perguntar a que Daniel está se referindo em 9.26,27, porquanto não há nada na história do tempo que se encaixe nessa descrição[20].

Nas contundentes palavras de Walvoord:

Em última análise, a questão que se apresenta a todo expositor é qual interpretação fornece exposição mais natural e inteligente do texto. Se não for necessário considerá-lo como profecia literal, e as unidades de tempo não forem literais, uma variedade de interpretações se torna imediatamente possível. Se o expositor, todavia, desejar seguir o texto de maneira meticulosa, não há na verdade alternativa, exceto declarar todo o septuagésimo sete como ainda futuro, pois não houve um período de sete anos que tenha cumprido os eventos da profecia, independentemente de quão elaborada a interpretação seja. Isso é geralmente reconhecido por aqueles que entendem os últimos sete anos como um período indefinido que permite a interpretação futurista[21].

De igual forma, Dwight Pentecost[22]observa que os acontecimentos de Daniel 9.26 necessitam de um intervalo, visto que dois grandes eventos ocorrem após a sexagésima semana e antes da septuagésima: a morte do Messias e a destruição da cidade e do templo de Jerusalém. Tais acontecimentos, segundo o expositor, não ocorreram na septuagésima semana, pois esta não é introduzida até o verso 27, mas num intervalo entre a sexagésima semana e a septuagésima.

Em abono, Pentecost assegura que o ensinamento neotestamentário de que Israel foi deixado de lado (Mt 23.37-39) até a restauração do trato de Deus, requer um espaço entre as últimas duas semanas; afinal, se a última semana fora cumprida, as seis bênçãos prometidas deveriam, igualmente, ter sido cumpridas para Israel. Mas nenhuma delas foi experimentada pela nação, ainda. O autor destaca, finalmente, que ao lidar com a profecia, Jesus prevê uma intervalo, porquanto Mateus 25.25 faz referência à vinda do "abominável da desolação", sendo este um sinal para Israel de que a grande tribulação se aproxima (Mt 24.21). Ele prossegue

Mesmo nessa hora, porém, há esperança, pois "logo em seguida à tribulação daqueles dias [...] verão o Filho do homem vindo sobre as nuvens, com poder e muita glória" (Mt 24.29,30). Desse modo, o Senhor coloca a septuagésima semana de Daniel no final dos tempos imediatamente antes de seu segundo advento à terra. Associando isso a Atos 1.6-8, vemos que toda era de duração indeterminada estará interposta entre a sexagéxima nova e a septuagésima semana na profecia. A única conclusão deve ser que os acontecimentos da septuagésima semana ainda não foram cumpridos e aguardam cumprimento literal futuro[23].

Portanto, tal compreensão é baseada em argumentos sólidos. Comparemos Daniel 9.27 com Mateus 24.15 e veja como se trata de uma profecia que ainda não se cumpriu. Esta última semana refere-se, então, ao período que implicará o advento do Anticristo e o início do tempo de tribulação para Israel e para o mundo.

A Grande Tribulação será o período de maior angústia da história humana (Ap 6.15-17), quando o mundo testemunhará a ira do Senhor (Jr 30.7). Essa etapa da história foi determinada por Deus para fazer justiça contra a rebelião dos moradores da terra e também para preparar a nação de Israel para o encontro com o seu Messias.

As duas metades da septuagésima semana

Na parte final da profecia revelada a Daniel consta: "E ele firmará aliança com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador" (9.27).

Isso mostra que a septuagésima semana pode ser dividida em duas metades distintas. A primeira metade será marcada pelo reinado absoluto do Anticristo – “o príncipe”, de acordo com Daniel 9:26b. Ironside afirma que "o príncipe é aquele terrível caráter que ainda entrará em cena e que reivindicará para si mesmo o poder supremo nos tempo dos dez reis do Império Romano"[24]. Se no capítulo 8 o Anticristo é apresentado quanto ao seu poder global, aqui no capítulo 9 temos a sua atuação em relação à nação israelita. Ele enganará Israel fazendo uma aliança com o povo judeu (Dn 9:27a), e buscará a adoração como se fora Deus (2Ts.2:4b), profanando o santuário, o lugar santo para o povo de Israel, como alertou o próprio Senhor Jesus (Mt.24:15).

A segunda metade terá início quando Israel se negar a adorá-lo, e então o Anticristo quebrará o acordo de paz – depois de três anos e meio (Daniel 9:27b) – e perseguirá o povo judeu. Essa segunda metade é A Grande Tribulação propriamente dita (1Ts 5.3; Jr 30.7). Ao final do período de sete anos, aparecerá o Libertador de Israel: “E, assim, todo o Israel será salvo (Rm 11.26). Este é o ápice de toda a profecia das setentas semanas, a segunda vinda de Jesus Cristo, encerrando o septuagésimo sete de Israel, bem como o tempo dos gentios.

O intervalo e a igreja

O estudo das Escrituras demonstra um longo intervalo de tempo que precede a septuagésima semana. A Bíblia identifica este intervalo profético como “o tempo dos gentios” (Lc 21.24). Atualmente, estamos no tempo da graça de Deus e temos de anunciar o ano aceitável do Senhor para o mundo inteiro (Lc 4.18,19).

É importante ressaltar que a profecia de Daniel refere-se a Israel e a Jerusalém. A Igreja de Cristo não passará pela Grande Tribulação (Ap 3.10), pois terá sido arrebatada Neste período, estaremos recebendo nossos galardões consoante ao trabalho que executamos na expansão do Reino de Deus. A promessa de Jesus à sua Igreja é a de preservá-la desse sofrimento (1 Ts 1.10; 5.9; Lc 21.35,36).

[1] LENNOX, John. Contra a correnteza: A inspiração de Daniel para uma uma época de relativismo. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, p. 303.

[2] HELM, David. Daniel para você. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 178.

[3] Idem.

[4] OLYOTT, Stuart. Ouse ser firme: o livro de Daniel. São José dos Campos: Editora Fiel, 1996, p. 145.

[5] OLYOTT, Stuart. Ouse ser firme: o livro de Daniel. São José dos Campos: Editora Fiel, 1996, p. 148.

[6] Sobre a expressão "o homem Gabriel", em Dn 9.21: "A referência a 'Gabriel, o homem', não é uma negação de sua condição de anjo, mas serve para identificá-lo como a visão de Daniel 8.15-16. O termo 'homem' (hebr., 'ish), também é utilizado no sentido de servo. E, como Wood observa, é possível que 'ish tenha sido usado porque ele 'aparecera na forma humana'. Como mostrado no capítulo 8, há um interessante jogo de palavras no pensamento aqui. Leupold comenta: 'O termo Gabriel significa homem de Deus, mas com esta diferença: a primeira raiz, gebher, significa 'homem' no sentido de 'o forte', e a segunda raiz, 'el, significa o 'Deus forte'. Em outras palavras, essa expressão poderia ser traduzida por 'o servo, o forte do Deus forte'". WALVOORD, John F. Daniel. Porto Alegre: Chamada, 2023. p. 366.

[7] LOPES, Hernandes. Daniel - o homem amado no céu. São Paulo: Hagnos, 2005, p. 119.

[8] "Daniel entendeu, a partir das profecias de Jeremias, que o exílio na Babilônia duraria setenta anos (Dn 9.2; Jr 25.11; 29.10). Ele reconheceu que a restauração dependia do arrependimento nacional (Jr 29.10-14), de modo que Daniel intercedeu pessoalmente por Israel com penitência e petições. Ele orou especificamente pela restauração de Jerusalém e do Templo (Dn 9.3-19). Aparentemente, Daniel esperava o cumprimento imediato e completo da restauração de Israel com a conclusão do cativeiro dos setenta anos. No entanto, a resposta que lhe foi entregue pelo arcanjo Gabriel (a profecia dos setenta anos) revelou que a restauração de Israel seria progressiva e se cumpriria definitivamente somente no tempo do fim”. LAHAYE, Tim; HINDSON (Ed.) Enciclopédia Popular de Profecia Bíblica. 1ª Edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p. 429).

[9] GILBERTO, Antonio. Daniel e Apocalipse: como entender o plano de Deus para os últimos dias. Rio de Janeiro: CPAD, 1984, p. 44.

[10] GILBERTO, Antonio. Daniel e Apocalipse: como entender o plano de Deus para os últimos dias. Rio de Janeiro: CPAD, 1984, p. 47.

[11] WALVOORD, John F. Daniel. Porto Alegre: Chamada, 2023, p. 373.

[12] PENTECOST, J. Dwight. Manual de Escatologia: uma análise detalhada dos eventos futuros. São Paulo: Editora Vida, 2002, p. 266.

[13] Idem.

[14] WALVOORD, John F. Daniel. Porto Alegre: Chamada, 2023, p. 390..

[15] LAHAYE, Tim; HINDSON (Ed.) Enciclopédia Popular de Profecia Bíblica. 1ª Edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p. 424. Este diagrama segue a linha adotada por Harold Hoehner, o qual refinou e atualizou os estudos de Robert Anderson. Na explicação de Walvoord: "Com base em sua revisão, ele acredita que as datas para as 69 semanas de Daniel 9.25 iniciam no primeiro dia de nisã (5 de março) de 444 a.C. e terminam no décimo dia de nisã (30 de março), no ano 33 d.C". (WALVOORD, 2023, p. 391).

[16] PENTECOST, 2002, p. 267.

[17] PEDRO, Severino. Daniel versículo por versículo. Rio de Janeiro: CPAD, 1986, p. 180.

[18] Por questão de objetividade, iremos nos deter às duas principais correntes sobre o tema. Contudo, vale ter em mente a existências de outras visões: "Pelo menos quatro outras visões têm sido sugeridas em oposição à futurista: (1) a visão liberal de que o septuagésimo sete foi cumprido nos eventos após perseguição aos macabeus, assim como os sessenta e nove setes anteriores; (2) a visão dos eruditos judeus de que a septuagésima semana foi cumprida na destruição de Jerusalém no ano 70 d.C.; (3) a visão de que a septuagésima semana de Daniel constitui um período indefinido, iniciando com Cristo, mas que se estende até o fim, com frequência defendida pelo milenaristas; e (4) a visão de que o septuagésimo sete são sete anos literais que se iniciam com o ministério público de Cristo e terminam cerca de três anos e meio após a sua morte". WALVOORD, 2023, p. 3997-398.

[19] PENTECOST, 2002, p. 269.

[20] LENNOX, John. Contra a correnteza: A inspiração de Daniel para uma uma época de relativismo. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, p. 321.

[21] WALVOORD, 2023, p. 402.

[22] PENTECOST, 2002, p. 271.

[23] Idem, p. 271-272.

[24] IRONSIDE, H. A. Sobre o livro de Daniel. São Paulo: Depósito de Literatura Cristã, 2007, p. 140.

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